sábado, 19 de dezembro de 2015

A Democracia merece compaixão. Dilma, não


Por Lucas Agra

    Chegamos ao mês final de um ano agonizante para o Governo Federal. O primeiro ano do segundo mandato foi um verdadeiro inferno na terra para Dilma e sua trupe. Joaquim Levy, o homem escolhido para ser o “salvador da pátria” (e que já caiu, por sinal) e reparador dos equívocos econômicos de Dilma e Mantega, foi duramente massacrado pelos petistas e imprensa de esquerda por suas medidas de “austeridade” financeira. De fato, sua escolha para a fazenda evidenciou que Dilma, de maneira descarada, mentiu para se reeleger. Inclusive, atribuiu à Marina uma política econômica que agora é oficial pelo PT. Mentiu também sobre os direitos LGBT, investimentos no Prouni, a tal “Pátria Educadora”, dentre outras falácias. Enfim, a Dilma da campanha não é a Dilma do Planalto. Nunca foi. Doce ilusão a dos militantes que espalharam pelo Brasil a imagem da Dilma de óculos, guerrilheira contra a ditadura. Hoje, Dilma não usa óculos, e parece militar em favor dos banqueiros.
    Porém, a sua incompetência, aliada às mentiras de campanha, não justificam o que o “moral” Eduardo Cunha e a oposição pretendem fazer: o processo de impeachment. 
     Justifico: Há alguma irregularidade, improbidade administrativa, que tenham sido cometidas de maneira DOLOSA, pela senhora presidente de República? Não, não há. Equívocos, incompetência, burrices... Sim, há muitos. Mas não se pode duvidar do caráter da presidente pelos seus equívocos.
    Sobre as tais “pedaladas” (atraso no repasse do Tesouro para bancos públicos, o que “maquiava” as contas públicas), elas foram cometidas também nos Governos FHC e Lula. Dois pesos e duas medidas? Se nada foi feito com seus antecessores pelo mesmo “crime”, por que então só agora se revoltar com a prática (que, cá entre nós, são um artifício vergonhoso de se melhorar as contas)?
  Ridículo também querer atribuir ao povo o desejo de, basicamente, quem votou na oposição. Os protestos pelo impeachment, renúncia, cassação (e outros eufemismos para golpe), em nenhum momento aglomeraram multidões semelhantes ao ocorrido no “Fora Collor” (por mais que a mídia tenha tentado mobilizar o Brasil). Em São Paulo, onde a oposição venceu o segundo turno com mais de 60% dos votos, era totalmente esperado que os protestos contra a presidente tivessem uma maior adesão. Mas mesmo assim, nada significativo para caracterizar como “o anseio do povo”. E, cá entre nós: “panelaço” é uma manifestação ridícula e preguiçosa, de quem tem tanta convicção de suas ideias, que não é capaz nem de ir às ruas protestar. No máximo, se dirige a uma janela.
   Sobre o impeachment ser um dispositivo legal de nossa constituição, está correto. Falar de impeachment, discuti-lo, analisar sua possibilidade e debate-lo não são nenhum crime. A questão é que ninguém está sendo razoável ao tratar deste assunto tão importante para a solidificação da nossa jovem e frágil democracia. Que Dilma atravessa um momento de grande impopularidade, todos nós sabemos. Mas não podemos querer achar que, a qualquer momento, podemos tirar quem não gostamos do cargo, se utilizando de algo que deve ser analisado com muito cuidado.
    Nas redes sociais, os defensores do impeachment argumentam que ninguém mais aguenta tanta “corrupção e incompetência”. Concordo. O brasileiro está cansado. Mas, sejamos sinceros: Será que os recentes casos não seriam apenas o estopim? Será que a Dilma não estaria pagando por décadas de descaso, corrupção endêmica e impunidade jurídica? Será que o governo dela está pagando por uma impaciência gerada pelos descasos também de seus antecessores? E, sabendo disto, será que é justo?
    A situação é tão delicada, que as pessoas nem se importam com a verdadeira motivação do Presidente da Câmara, o atolado em denúncias Eduardo Cunha. Elas sabem que o motivo da abertura do processo não é nem um pouco nobre (retaliação a criação do Conselho de ética para discutir a cassação do mandato do deputado), mas parecem não se importar com isso. Para eles, “os fins justificam os meios”. Será mesmo?